Contos:A Troca



A vida de Alan estava cada dia pior. Primeiro foi o carro roubado. Depois foi o término do namoro de dois anos com Juliana, a mulher que ele ainda amava. E agora para completar, perdeu o emprego.


A vida já não vinha sendo justa com ele há muito tempo. Sua infância foi sofrida demais.
Ele e sua mãe apanhavam quase diariamente do pai alcoólatra. No colégio era visto como um idiota somente porque não queria se enturmar com ninguém. Nenhuma garota olhava para aquele menino franzino com óculos fundo de garrafa, e os mais endiabrados queriam bater nele pelos motivos mais banais.
O resultado disso foi um ódio mortal por tudo e por todos. Parecia que a vida estava querendo isso desde o principio. Queria que esse ódio crescesse dentro dele.
Hoje ele não era mais um garoto franzino, tornara-se um homem forte. Aposentou os óculos - usava lentes.
Com seu cérebro bem trabalhado, conseguiu ganhar dinheiro suficiente para viver uma vida confortável. Mas nada disso parecia lhe trazer prazer.
Já era difícil segurar dentro de si o desejo de vingança por todas as humilhações que passou, e os últimos acontecimentos estavam servindo como uma gota d'agua.
Tudo o que ele queria fazer no momento era voltar no tempo e destruir todos os seus algozes, mas isso era impossível. O que passou, passou, e o único momento em que podemos fazer alguma coisa era agora, no presente.
Parou um tempo para refletir e percebeu que seu ódio poderia ter alguma serventia, afinal, quantas pessoas não sofrem nas mãos de verdadeiros monstros pelo mundo?
Mas para fazer qualquer coisa, precisava de algo que não possuía: poder. Poder para destruir e humilhar. Poder para aniquilar não somente o corpo, mas também a alma, exatamente como haviam feito com ele.
Ah, como essas idéias lhe davam prazer! Como era saboroso imaginar um estuprador gritando ao ser dilacerado pelas suas mãos! Como seria maravilhoso estraçalhar um assassino, após fazê-lo passar pelas piores humilhações!
E essas idéias que passavam como um filme em sua mente acabaram atraindo algo antigo e maligno. Algo que possuía todo o poder que Alan tanto almejava. Algo que poderia realizar toda sua fantasia sanguinolenta.
E assim, de um espelho que se encontrava próximo às costas de Alan, veio uma saudação sombria e fantasmagórica:
- Boa noite Alan. O que desejas é poder?
A voz parecia com um coro. Era como se várias pessoas falassem juntas em uma só voz. Era grossa, mas ao mesmo tempo sussurrante. Ele jamais havia escutado algo parecido em toda a vida.
O susto foi grande. O coração parecia que ia saltar pela boca. Seus membros tremiam, e as extremidades logo ficaram úmidas de suor.
Temia se virar para ver o autor da voz.
Quando finalmente tomou coragem para olhar, se deparou com seu próprio reflexo, que dizia:
- Posso dar-lhe o poder que necessitas para sua vingança pessoal, se me deres aquilo que mais desejo.
- E...e o que você quer? – Gaguejou Alan.
- Viver novamente! - Respondeu o reflexo.
O que seria aquilo? Estaria ficando louco? Estava dialogando com seu próprio reflexo.
- A minha vida? Você realmente quer viver esta porcaria de vida?
- Sim, desejo trocar todo o poder destrutivo que hoje possuo, por mais uma chance de viver.
- Me diga criatura, que poder é esse que me oferece? - perguntou Alan interessado.
- O poder de estar onde quiser, no momento em que desejar. O poder de destruir qualquer ser vivente que esteja ao seu alcance. Todo o poder de um Gaali.
- O que é um Gaali?
- Vivemos nos reflexos. Onde houver uma imagem refletida, ali poderemos estar, bastando somente desejar. Tudo o que estiver refletido, podemos destruir. Somos como Demônios confinados dentro dos espelhos. - Respondeu o Gaali.
- E porque abrir mão de tanta liberdade ao trocar por uma vida miserável? - Indagou Alan.
- Um dia fui humano como você, mas o ódio consumiu minha alma. A mesma oferta que lhe faço hoje foi feita para mim há muito tempo, e eu a aceitei. Matei todas as pessoas que odiava e me vinguei totalmente. Foi ai que percebi que nada mudou dentro de mim.
“Aquele sentimento horrível continuava a existir, mesmo com todos os alvos eliminados. Foram décadas de muito sofrimento. Só assim consegui enxergar que precisava aprender a perdoar e compreender. Mas agora era tarde. Só poderia voltar a viver e ter uma segunda chance se encontrasse alguém que aceitasse a troca que hoje lhe ofereço”.
- Perdoar e compreender? - indagou Alan - Como poderia perdoar pessoas malignas que mais parecem monstros com seus atos desumanos?
''Como posso compreender a motivação de um assassino de crianças? Como posso fechar os olhos diante das ofensas e perseguições que sofri em toda a minha vida? NÃO HÁ COMO!''
Alan parecia transtornado de ódio. A palavra ''perdão'' soava como uma ofensa a ele.
- Entendo seu lado. Já fui assim. Se realmente desejas do fundo de sua alma colocar em prática essa vingança, apenas diga: “Aceito a oferta deste Gaali”.
- Sim criatura, aceito sua oferta. Eu aceito a oferta deste Gaali! - Respondeu prontamente.
Um silêncio profundo tomou conta do quarto. Alan percebeu um pequeno sorriso nos lábios de sua imagem no espelho. As paredes começaram a parecer sombrias e assustadoras. Era como se vários olhos o observassem agora, de algum lugar que não conseguia ver.
Vozes começaram a surgir de todos os cantos do quarto. Eram como pequenos lamentos. Crianças choravam, adultos gritavam, mulheres gemiam e homens soluçavam, mas Alan não conseguia ver ninguém!
Voltou a achar que estava ficando louco. Tentava encontrar algo no cômodo, olhava para todos os cantos, mas o quarto continuava o mesmo. A sensação é que havia mudado.
Os sons ficavam cada vez mais altos, fazendo com que seu desespero chegasse ao máximo.
Começou a sentir um enjôo incomum, tão forte que o forçou a fechar os olhos. Aquela sensação era horrível, e ficava cada vez mais forte. Os olhos se mantinham cerrados devido a dor e o grande mal-estar.
Quando os abriu novamente, já não se encontrava mais em frente ao espelho.
A sensação horrível que havia dominado seu corpo já não estava mais presente. Se sentia bem, apesar de emocionalmente estar bastante abalado.
Nunca havia visto nada parecido com o local que estava agora, nem sentido seu corpo tão leve. Estava mergulhado em uma escuridão profunda, e diante de si havia uma fenda flutuante na qual podia ver seu antigo corpo estirado no chão de um cômodo tentando levantar-se.
Alan havia se tornado um Gaali.
Ouviu seu velho corpo gargalhar e dizer:
- Finalmente! Enfim voltei a viver depois de tantos séculos! Que nome usarei? Agora serei Arthur! Me chame de Arthur meu amigo, e desfrute bem da vida de um Gaali!
''Mas pelo que pude sondar de sua alma enquanto tinha meus poderes, você não é capaz de machucar nem uma mosca sequer, pois é ‘bonzinho’ demais!''
Aquilo foi como uma facada para ele. Era como se dissesse que ele era fraco, idiota e patético.
Alan ficou ali observando com ódio Arthur se arrumar, se olhar e se pentear. Observava a alegria que emanava de sua alma, e ficou admirado ao perceber que agora era capaz até mesmo de sentir o sentimento alheio.
Foi ai que captou a sensação de menosprezo vinda de Arthur em relação a ele, e percebeu que realmente era visto como um idiota.
A vida parece não gostar dos bons. O mundo condena os bons. As mulheres desprezam os bons. Parecia que só os que possuíam maldade, malandragem e violência eram admirados. Que só os que não respeitavam ninguém obtinham algum respeito. Que somente os cruéis e carrascos eram vistos como fortes!
Era como se a bondade fosse vista como fraqueza pelo mundo. Uma pessoa boa dificilmente conseguia sobreviver no meio de tanta perseguição.
O ódio foi crescendo de uma forma jamais sentida por Alan. Ódio do mundo. Ódio da vida. Ódio de Deus! Um Deus que permitia que seus filhos sofressem! Um Deus que fechava os olhos para o que os maus faziam aos bons! Um Deus que ignorava suas orações. Uma vida que ignorava sua dor. Um mundo que desprezava seu amor.
E quando viu que Arthur estava prestes a sair e voltar a ter uma vida normal, disse:
- Arthur! Quem sabe a vida não tenha alcançado seu objetivo?
- Qual objetivo?
- Me tornar menos ''bonzinho''!
Arthur arregalou os olhos temendo o que essa frase poderia representar. Engoliu seco ao ver que Alan, agora do outro lado do espelho, estava sorrindo de forma sombria. Mas já era tarde.
Os olhos de Alan estavam fixos em Arthur, que mesmo tendo perdido seus poderes, podia sentir o ódio emanando daquele olhar maldito. Começou a sentir seu pescoço ser apertado por uma força oculta. Não conseguia dizer uma palavra sequer.
Sabia exatamente o que estava acontecendo com ele. Já fizera várias vítimas utilizando o mesmo poder, a mesma força, o mesmo ódio.
Seu corpo começou a ser erguido do chão, como se uma corda estivesse amarrada a seu pescoço, puxando-o em direção ao teto.
Tentava com todas as forças implorar por sua vida, mas não havia forma de sair nenhum tipo de som da sua boca. Sentiu um grande empurrão, que arremessou seu corpo em direção a janela.
O vidro espatifou com um som ensurdecedor e foi espalhado pelo ar em inúmeros pedaços. Sua vida inteira passou diante dos seus olhos enquanto caía. Viu o chão parecer cada vez mais próximo, e com desespero tentava se segurar em qualquer coisa pelo caminho, mas nada estava ao seu alcance.
Finalmente sua cabeça encontrou o solo. Estava no décimo andar, e a queda foi fatal.
Alan se sentia aliviado, como se tivesse provado a si mesmo que não era um idiota. Como se tivesse provado à vida que podia ser mal, assim como ela queria. Mas não demorou muito para o ódio voltar a lhe dar agonia.
Precisava se vingar, e agora Alan tinha o poder que tanto desejava. Agora tinha o ódio amarrado seu peito como todos ao seu redor cultivaram por toda a vida. Agora havia se tornado algo que parecia ser seu destino: um Gaali.
No momento não importava para ele se a vingança traria paz ou sofrimento à sua alma. Seu coração estava completamente dominado por este desejo incontrolável.
Que o mundo agora colha seus frutos, pois o perdão foi completamente esquecido por este novo Gaali.
Que a justiça seja feita, que os responsáveis sejam severamente punidos e que a vida se arrependa amargamente de ter criado esse novo Diabo.

Autor:Julio Sergio

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